09/05/17

Judea, de Diniz Conefrey [Pianola, 2016]

Judea é a narrativa gráfica que resultou da adaptação livre que Diniz Conefrey realizou do conto Mocidade (Youth), escrito por Joseph Conrad em 1898, a partir das suas próprias viagens pelo mar a bordo do Palestine  em 1882.

Como Conrad, Conefrey cria aqui uma visão impressionista desta narrativa cuja matriz aventureira pelo desconhecido, uma viagem de barco ao Oriente, reflecte-se nas suas explorações gráficas, ora mais naturalistas, ora mais abstractas, permitindo/sugerindo ao leitor ser também observador contemplativo. As primeiras dez pranchas quase sem texto, onde o autor representa as frias paisagens da costa inglesa, são disso exemplo.


Refere Pedro Moura que “Se a banda desenhada classicamente narrativa reforça esse fito através da criação de nódulos de acção, começando in media res, criando pontos de suspense, debuxando arcos de desenvolvimento e resolução, Conefrey procura outras linguagens, em que a intensidade está sempre presente mas não na organização dos “episódios”. A mera escolha de ter nos limites do relato propriamente dito estes momentos de largos e fundos respirares da paisagem prometem desde logo uma outra forma de leitura”.

O conto Youth, publicado pela primeira vez na escocesa Blackwood's Magazine em Setembro de 1898, é considerado um ensaio para a novela The Heart of Darkness, de 1899. De resto, ambos os títulos foram compilados em Youth, a Narrative; and Two Other Stories, em 1902, sendo The End of the Tether, a terceira narrativa incluída.

Uma adaptação de The Heart of Darkness realizada por David Zane Mairowitz e ilustrada por Catherine Anyango, (SelfMadeHero, 2010), também seguiu já o cariz atmosférico desta adaptação de Conefrey, e é leitura recomendada; bem como, e principalmente, os originais de Joseph Conrad.

Sinopse
Do livro para esta novela gráfica, a matéria é a mesma, o fogo é o mesmo, mas nesta outra aproximação o mar engole a representação do indivíduo, embora ele seja também a vaga que permite a vida. A tonalidade central nesta leitura já não é a mocidade nem toda a sua energia, que confronta e supera os males do mundo. Toda a substância, neste outro olhar, volta-se para o imponderável através da descrição dos eventos abertos aos sentidos, pulsando a narrativa em contraponto entre a imagem de acção exterior e um sentido visual abstracto; como expressão subjectiva de uma realidade interior. O narrador já não é Marlow, descrevendo os seus dias de mocidade, mas uma voz omnisciente que acompanha o leitor através da trágica viagem de um velho navio, procurando alcançar o Oriente.

Judea, de Diniz Conefrey
Adaptação livre da novela Mocidade de Joseph Conrad
Pianola 14
84 pág., p/b, 27 x 19 cm, €16,00
ISBN 9789899934993
400 exemplares
Pianola Editores, Novembro 2016


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