05/05/17

Entrevista a José Hartvig de Freitas - parte I


A G. Floy Studio é uma editora já bem conhecida dos leitores nacionais, quer pelas boas séries comerciais de editoras “independentes” americanas, que publica em edições formalmente cuidadas e que respeitam, na maioria dos casos, a visão original dos seus autores, quer pela regularidade com que os seus títulos aparecem, tanto nas bancas de jornais como nas livrarias.

Criada em 2003 na Dinamarca por Christine Meyer, gestora de direitos de autores e leitora de comics de longa data, a G. Floy tem desde então vindo a operar em vários mercados europeus, tendo no passado já publicado alguns títulos de comics em Portugal, incluindo Fell, Hellboy de Mike Mignola e o seminal Orquídea Negra (Black Orchid), de Neil Gaiman e Dave McKean. No Outono de 2014, esta editora iniciou um plano contínuo de co-edições, aproveitando sinergias com os outros mercados em que opera, tendo como colaborador e editor residente José de Freitas

José de Freitas é editor de comics desde há mais de 15 anos, primeiro como editor e responsável pela Devir, mais tarde como coordenador das colecções que a Levoir e o jornal Público têm vindo a editar desde 2012, e como Editor Assistente da Panini Comics em Portugal, para as edições regulares de títulos da Marvel.

Directo e incisivo na forma como defende o que publica, José de Freitas tem vindo a modificar o modo indiferente e irregular (há honrosas excepções, claro) com que as editoras nacionais comunicam com o seu público, quer seja através do envio regular de notas de imprensa, disponibilidade para esclarecimentos nas redes sociais, ou mesmo através da divulgação de outras editoras (através da Europress), contribuindo activamente para a manutenção, crescimento e diversidade do mercado nacional de BD, obviamente por interesse económico, mas também por genuína convicção.

Esta entrevista é reflexo disso.


A Garagem: A G-Floy tornou-se, em relativamente pouco tempo, numa das melhores e mais activas editoras de comics em Portugal. Esperavas este sucesso comercial e da “crítica” num mercado tão volátil como é o nosso?

José de Freitas: Na verdade, essa pergunta tem respostas várias. Deixa-me fazer uma recapitulação. Quando comecei a trabalhar neste projecto com a Christine Meyer-Jensen, já a conhecia há bastante tempo. Comecei a trabalhar com ela em 2000, quando ainda estava na Devir, ela na altura era representante de direitos de autores de comics, estúdios, editoras, etc... e nós comprámos-lhe a ela os direitos de séries como Wytchblade, Tomb Raider, Vampi, 30 Dias de Noite e outras. Mais tarde, ela iniciou um projecto de edição na Polónia e na Dinamarca, e fizemos muitos projectos em conjunto - livros que eram co-produzidos, e impressos por nós em várias línguas. Foi a altura em que produzimos, p.ex. o 30 Dias de Noite, ou o Hellblazer: Nas Ruas de Londres, talvez o livro que editámos em mais línguas (Português, Dinamarquês, Polaco, Alemão, Italiano, Finlandês e mais, já nem me lembro).

Depois de eu sair da Devir (em 2007), a G.Floy (e a Christine) continuaram a colaborar com a Devir, nomeadamente na continuação de séries como Hellboy. Em 2014, a Christine contactou-me com a ideia de um projecto diferente. Inicialmente, era só para nós lhe darmos uma ajuda com a comercialização de algumas séries da Image, cujos direitos tinha comprado para a Polónia, e para o nosso país, para melhorar a sua competitividade relativamente a outras propostas de editoras que operavam em só um país. Mas aos poucos, e à medida que fomos falando e andando para a frente, transformou-se num verdadeiro projecto editorial: aos 3 livros que lançámos em Novembro de 2014, juntaram-se outros 11 em 2015, e 19 em 2016 (e possivelmente trinta e tal em 2017). A Christine é uma pessoa muito dinâmica e muito directa, muito prática, e juntando o facto de eu ainda ter algum conhecimento do mercado da BD cá, as coisas têm corrido bem.

Por isso, a resposta é simples: sim, eu estava à espera que o projecto funcionasse bem, não tinha era imaginado que ele ganhasse a amplitude e tamanho que efectivamente ganhou, e que eu espero que se continue a confirmar em 2018. 

G: O que pensas sobre o desfasamento entre a antecedência com que o lançamento mensal de centenas de títulos são anunciados no mercado norte-americano e o que acontece por aqui, onde as editoras ainda cultivam um certo secretismo e anunciam as suas edições em cima do acontecimento?

JF: Creio que isso tem vindo a mudar, e que a maioria das editoras já não cultivam esse secretismo ao mesmo nível. Penso que só a ASA e a Polvo é que costumam ser meio reservadas e pouco ou nada revelam do que pretendem fazer; em muitos casos, as editoras de BD tendem até a ser muito abertas hoje em dia: em chegam inclusive a dizer qual a tiragem dos seus livros, e a anunciar lançamentos com meses de adiantamento, etc...

Dito isto, existem segredos e segredos. É verdade que em certas áreas, em que existe alguma competição, por exemplo, não se pode andar a dizer abertamente que livros se pretende editar, sem antes ter os contratos negociados. Nós, na G.Floy, costumamos anunciar as séries e livros que vamos editar com bastante avanço, mas sempre só depois do contrato estar assinado. Claro, podemos gerir os anúncios e espalhar, por exemplo, o anúncio de 2-3 livros ao longo de 15-30 dias, mas isso é mais estratégia para ter mais oportunidades e motivos de mandar presses e fazer posts no nosso Facebook.

É preciso ver que trabalhar com autores nacionais que estão a preparar álbuns é fundamentalmente diferente de trabalhar com licenças. Se fores a ver, a Kingpin no ano passado anunciou meia dúzia de projectos que levarão mais de um ano a sair todos. Nós na G.Floy, por outro lado, anunciamos geralmente os livros uns meses (não muitos) antes do seu lançamento.

Eu, pessoalmente, estou convencido que é bom anunciar os livros com uns meses de antecedência, para criar alguma expectativa e para estar mais ou menos presente na mente do fã, desde que se vá mantendo um fluxo de informações interessantes para os leitores, e claro, desde que não haja atrasos enormes nos lançamentos, uma vez anunciados.

No mercado US a antecedência tem muito a ver com a estrutura de distribuição e com a existência do catálogo da Diamond, que impõe pelo menos 2-3 meses de antecedência nos anúncios. Eu sei que mesmo esses 2-3 meses eram impensáveis em Portugal, a dada altura, mas acho que isso está a mudar.

G: A aposta editorial da G. Floy tem sido, até agora, principalmente em compilações de capa dura. Há planos para publicar regularmente noutros formatos?

JF: Lançámos um romance gráfico (O Astrágalo) que foi editado em capa mole, num formato típico desse tipo de livros (17 x 24). Em tiragens pequenas de livros deste género, a diferença de preço entre a capa dura e mole pode ser significativa, e trata-se de um segmento comercial que está habituado a esse tipo de formato. No entanto, aos poucos temos tido a sensação de que o público leitor de BD prefere mesmo o livro em capa dura, e em princípio continuará a ser esse o nosso formato preferencial.

continua...

1 comentários:

  1. Uma pessoa de um dinamismo, cultura, gosto pelo meio e profissionalismo que já operou uma verdadeira revolução no mercado português. É de continuar!

    ResponderEliminar

Maximum Rocknroll #413 Out. 2017


Disponível na Black Mamba Distro €4.50
"It’s time for Maximum Rocknroll #413, the October 2017 issue! Do you love KLEENEX/LILIPUT as much as we do? Then you will love the scoop that we have on NEON and their involvement in the early Swiss punk scene. We also speak to Rome’s NOFU on the eve of their first US tour, while LOS IMPUESTOS tell us about the struggles of discovering new music and being a punk in their native Guatemala. Interested in the history of squatting? So is Amy Starecheski, the author of Ours to Lose: When Squatters Became Homeowners in New York City, who spills about an incredibly unique moment in US squatting history. In a dual interview, filmmakers Monika Estrella Negra and Michelle Garza Cervera about combating the dominance of straight white male voices in cinema."